O Deus Verme
Por
Joelson Nascimento
Há décadas, caminhando pela avenida principal da Mangabinha, bairro de Itabuna, cidade do interior da Bahia, estava acompanhado de um colega. Infelizmente recordo apenas o seu sobrenome: Barata. Lembro também que ele estava cursando medicina em outro Estado. A certa altura da caminhada, avistamos uma multidão parada ao redor de algo que ainda não conseguíamos distinguir. Ao nos aproximarmos, vimos o corpo de um cão que acabara de ser atropelado.
Percebi no comportamento
do público um tipo de asco, repugnância, um sentimento de recusa diante de uma
realidade que se impunha drasticamente. Atordoados pela novidade do acontecido,
nos aproximamos do animal. Eu, sendo conduzido pelos mesmos sentimentos dos
demais; Barata, pela visão científica adquirida no curso de medicina. Chegando mais perto do corpo, disse meu amigo:
- Nossa, que interessante!
Achei-o pedante por falar
dessa maneira: - Só por fazer medicina..., penssei. Como alguém não poderia se espantar
com a imagem de vísceras expostas? Como não sentir pena daquele cão, vítima,
quem sabe, de uma imprudência humana? Ainda continuaria a achar interessante caso
fosse uma criança naquela situação? Como achar belo algo asqueroso ou
triste? Como uma visão científica do mundo pode enxergar o belo dentro de uma frialdade
mecânica? Quero tentar, décadas depois, responder a esses questionamentos.
O fundamento para tais
respostas surgiu a mim através do estoicismo, uma escola grega de filosofia fundada
por Zenão de Cítio por volta do ano trezentos antes de Cristo. Um dos pilares do
pensamento estoico é a ideia de que todo o Kosmos é uma interação entre dois princípios: Deus e Matéria. Todas as coisas percebidas ao nosso redor, como pedras, troncos,
árvores, animais, pessoas, constituem-se de dessa mistura.
Além do mais, cada tipo de corpo formado por essa combinação possui um movimento que o
torna distinto dos demais. É um movimento interno realizado pela atividade do
próprio Deus, a fim de tornar possível a existência do todo. Em síntese,
podemos afirmar que, segundo os estoicos, tudo o que existe só o é por uma
causa divina.
A partir dessa ideia, tanto as pedras quanto
os seres humanos compartilham o mesmo Deus dentro de si. Essa premissa fornece as
bases para outras: se tudo contém Deus, tudo funciona dentro de uma ordem
divina. Ora, sendo divina, é necessário que seja bela. Mas até aqui não seria
difícil defender a existência de belezas naturais como cachoeiras, cadeias de
montanhas, oceanos, florestas, recifes de corais. Contudo, voltemos ao que eu chamarei de “o cão de Barata”. Como perceber beleza em situações que normalmente
consideramos trágicas ou repulsivas? Que fale o imperador estoico Marco
Aurélio:
Convém,
também, observar que inclusive as mudanças das coisas naturais têm algum
encanto e atrativo. Por exemplo, o pão, ao ser assado, abre-se em certas
partes; essas aberturas que se formam e que, de certo modo, são contrárias à
promessa da arte do padeiro, são adequadas, e excitam singularmente o apetite...
Assim, também, as azeitonas, que ficam maduras nas árvores, e sua mesma
proximidade à podridão acrescenta ao fruto uma beleza singular. Igualmente...o
pelo do leão e a espuma que brota do focinho dos javalis e muitas outras
coisas, examinadas em particular, estão longe de serem belas. Entretanto, ao
ser consequência de certos processos naturais, apresentam um aspecto belo e são
atrativas. De maneira que, se uma pessoa tem sensibilidade e inteligência
suficientemente profunda para captar o que acontece no conjunto, quase nada lhe
parecerá, inclusive entre as coisas que acontecem por efeitos secundários, não
conter algum encanto singular. E essa pessoa verá as goelas ameaçadoras das
feras com o mesmo agrado que todas as suas reproduções realizadas por pintores
e escultores. Inclusive, poderá ver com seus sagazes olhos certa plenitude e
maturidade na anciã e no ancião e, também, nas crianças, seu amável encanto.
Muitas coisas semelhantes não se encontrarão ao alcance de qualquer um, mas,
exclusivamente, para o que de verdade esteja familiarizado com a natureza e
suas obras (Meditações, 3.2 Tradução de Thainara Castro Lima).
“Sensibilidade
e inteligência suficientemente profunda para captar o que acontece no conjunto”.
Não é fácil percebermos o belo em situações em que acostumamos desde sempre a
recusar como grotescas. Mas, de que forma podemos adquirir a sensibilidade
e a inteligência propostas por Marcos Aurélio?
Em 1937, quando o artista Pablo Picasso (1881-1973) pintou o quadro intitulado Guernica, a opinião pública internacional chocou-se com a representação da brutalidade das forças do General Franco contra as pessoas que habitavam a vila de Guernica, na Espanha. Entretanto, a beleza da obra não pôde ser contestada. Apesar de ser um ato moralmente terrível, ele é retratado belamente com figuras geometricamente decompostas (o que caracteriza o cubismo) em branco e preto. Como alguém poderia representar um ato tão brutal de forma tão bela? Augusto dos Anjos (1884-1914), poeta paraibano popularmente cognominado de “Poeta da Morte”, revela-nos de forma bela o ato final de seu pai:
Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Em seus lábios que os meus lábios osculam. Micro-organismos
fúnebres pululam numa fermentação gorda de cidra. Duras leis as que os homens e
a hórrida hidra a uma só lei biológica vinculam e a marcha das moléculas
regulam, com a invariabilidade da clepsidra!... Podre meu Pai! E a mão que enchi
de beijos roída toda de bichos, como os queijos sobre a mesa de orgíacos
festins!... Amo meu Pai na atômica desordem entre as bocas necrófagas que o
mordem e a terra infecta que lhe cobre os rins! (Eu e outras poesias, Organização
e Introdução de Alexei Bueno).
A arte, entendo, é o melhor e o mais belo caminho para atingirmos a sensibilidade de nos enxergarmos como parte de um todo. Admirarmos poemas, pinturas, filmes de terror. Como não admirarmos a Natureza em toda sua forma expressiva? Compreendo que não existem valores morais nas leis da Natureza, sendo indiferente a um terremoto destruir uma cidade ou um ninho de pássaros. Sendo assim, seriamos insensíveis ao atribuir beleza a um fenômeno natural destrutivo? Se este é o caso, como julgar um cientista por se enlevar como um dos mais violentos fenômenos do Universo? Conforme o físico teórico Michio Kaku, no documentário Como Funciona o Universoz:
O
nosso Sol é a nossa madrasta. A nossa verdadeira mãe morreu numa explosão de
super nova para gerar os elementos que perfazem o nosso corpo. Então por que os
poetas e os compositores não escrevem poemas para a nossa verdadeira mãe?
Talvez porque eles não conhecem a física e as leis da evolução estelar.
Arte e Ciência. Compreendo que nelas se encontrem a sensibilidade e a inteligência propostas por Marcos Aurélio. A beleza de uma explosão estelar em super nova e a narrativa poética da morte têm ambas a força para nos revelar uma natureza tragicamente bela. A dúvida de Michio Kaku, sobre os poetas conhecerem ou não as leis da física, pode se justificar, talvez, pelo seu desconhecimento acerca da obra de Marcus Aurélio, talvez por não conhecer Augusto dos Anjos ou mesmo conversado com meu amigo Barata.
A partir disso concluo que, assim como os físicos, os artistas sempre olharam o Kosmos de forma a nos oferecer uma imagem respeitosa e bela. Assim como a morte pôde ser expressa de uma forma sublime, como nos mostra Euclides da Cunha, na obra Os Sertões, ao encontrar o corpo de um soldado e de alguns cavalos:
"[...] O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses - braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...e estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos. de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranquilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme - o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria - lhe maculara os tecidos. volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares[...] os cavalos mortos naquele mesmo dia semelhavam espécimes empalhados, de museus. O pescoço apenas mais alongado e fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro.
A ausência da decomposição repugnante dos vermes necrófagos, em Euclides da Cunha, é presença em um Augusto dos Anjos, no poema intitulado O Deus Verme:
Fator universal do transformismo, Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria, Verme – é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo em sua diária ocupação funérea.
E vive em contubérnio com a bactéria, livre das roupas do antropomorfismo.
Almoça a podridão das drupas agras, junta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão... Ah! Para ele é que a carne podre fica,
e no inventário da matéria rica, cabe aos seus filhos a maior porção!

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