A Era de Ouro por Ovídio e Sêneca
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Ovídio, em sua obra As Metamorfoses, ilustra a relação entre o movimento cosmológico e humano dividindo-o em quatro eras:
Antes de haver o mar e as terras e o céu que cobre tudo, a natureza inteira tinha a mesma aparência, chamada de Caos; massa bruta e informe, que não passava de um peso inerte, conjunto confuso das sementes das coisas. Nenhum Titã, ainda, oferecia luz ao mundo, nem Febe renovava constantemente o seu vulto, nem a Terra se sustentava por seu próprio peso, rodeada pelo ar, nem Anfitrite estendia os braços ao longo da Terra. A terra, o mar e o ar se confundiam, a terra era instável, os mares eram inavegáveis, o ar carecia de luz: coisa alguma ostentava a sua própria forma, umas coisas se opunham às outras, eis que, em um só corpo, o frio lutava com o calor, a umidade com a secura, o que era macio com o que era rígido, o que não tinha peso com o pesado[1]
O poema nos mostra um período de indeterminação e unidade de elementos. Um só corpo inerte trazendo dentro si a potência para a criação das distintas formas que comporão o Universo. Uma ‘massa bruta’, compreendida como matéria não qualificada; um momento onde o Caos era a realidade dominante. Contudo, a divindade age e começa a dispor o mundo permitindo o desenvolvimento de todos os seres e garantindo-lhes individualidade. Em seguida, dá à Terra um formato de disco a fim de evitar a desigualdade dos lados; dispõe as ondas do mar e os ventos; uni fontes, pântanos e lagos; estende os campos para formarem vales; dispõe os rios para que desaguem na terra ou no mar. Após fixar os limites, as águas passam a abrigar os peixes, enquanto a terra os animais selvagens e o ar as aves. Por último, foi criado um ser de mente superior capaz de dominar os outros animais: “Ao passo que os outros animais se inclinam para a terra, ele deu ao humano um rosto voltado para o alto, mandando-o encarar o céu e contemplar os astros. Assim, a terra...acolheu as figuras...dos humanos”[2].
É a história humana que será dividida por Ovídio em quatro períodos, sendo o primeiro deles nomeado por ‘Idade do Ouro’. É um período também mais próximo do estágio inicial da criação. O momento em que os humanos eram honestos; não necessitavam de juízes, punições, nem das Lei das XII Tábuas. [3] A construção de barcos para exploração de outros locais ainda não existia, muito menos instrumentos bélicos, fossos e muralhas. A vida era tranquila, pois não havia a necessidade de arar a terra, já que esta ofertava os seus fartos frutos aos humanos que, sem quaisquer esforços, colhia-os das árvores em uma primavera perene: “[...] mesmo a terra não arada ostentava searas, e os campos sem trato branquejavam com as pesadas espigas. Corriam [...] rios de leite, [...] rios de néctar, e o dourado mel escorria da verdejante azinheira”.[4]
Depois, uma vez “precipitado Saturno no tenebroso Tártaro”[5], a segunda idade a surgir é a de ‘Prata’, a qual, governada por Júpiter, é “pior que a de ouro, mais valiosa que a de Bronze”.[6] Nessa, a primavera tem sua duração reduzida para a implementação das outras estações, o que proporcionou épocas de período mais quente e mais frio. Esse acontecimento em especial, afirma Ovídio, fez os humanos buscarem abrigos, arar a terra e consumir os animais.
Ovídio não fala muito sobre a ‘Idade do Bronze’, limitando-se a afirmar que foi uma era onde os humanos dispunham de armas terríveis, mas não criminosas. Já na última Idade, a do Ferro, os males, de forma brutal, surgiram, incitando os humanos à subtração de toda a vergonha e toda a lealdade e substituindo-as pela violência e pelo dolo. Ignorantes na arte de navegar, ainda assim os humanos lançaram-se ao mar em busca de terras desconhecidas. Surgiu a arte da agricultura, não deixando mais ao encargo da terra sua nutrição. Escavaram a terra para retirar dela o ferro e o ouro, o que fez surgir a ganância e, por conseguinte, a guerra. O roubo transformou-se em meio de vida. Não há mais harmonia entre os membros de uma mesma família:
O esposo ameaça a vida da esposa, e ela a do marido; as sinistras madrastas preparam venenos terríveis; o filho pretende abreviar os dias do pai. Jas vencida a piedade, e a Virgem Astréia, [7] última criatura celestial, abandonou a terra empapada de sangue.[8]
Conforme Ovídio, em sua primeira idade, a Idade do Ouro, os seres humanos eram honestos. Eles ainda não possuíam a técnica para a construção de barcos nem tampouco instrumentos bélicos. Eles viviam da terra, que dispunha tudo o que era necessária para o sustento da vida sem necessidade de técnicas de cultivo ou construções em geral. Na segunda idade, Idade de Prata, sofre o humano com as mudanças climáticas, agora sim, surgindo a necessidade de desenvolverem técnicas de agricultura e de exploração dos animais. Na terceira idade, Idade de Bronze, não temos nenhum fenômeno físico que esteja ligado à razão dos humanos recorrerem à armas terríveis, porém não criminosas. No entanto, é na terceira idade, A Idade do Ferro, que o ser humano tenta modificar a natureza explorando os mares sem a capacidade de fazê-los; extraindo da terra elementos que se tornaram fontes de desgraças, como o ferro e o ouro, fontes de disputas sangurentas.
De forma semelhante, Sêneca, na Carta 90, [9] diz que houve um tempo em que os primeiros humanos e seus eram valorizados por sua capacidade intelectual, fazendo daquele que a bem usasse um líder. Mas essa autoridade não era conquistada de forma violenta, pelo contrário, Sêneca considerava os povos mais felizes aqueles que entendiam que o humano mais poderoso era o que compreendia a impossibilidade de fazer o que não era devido, o que o tornava um ser autorizado a fazer tudo, pois sempre seria o melhor para todos:
Eles restringiam as mãos de seus companheiros e protegiam os mais fracos dos mais fortes. Eles persuadiam e dissuadiam, e mostravam o que era útil e o que era inútil. Sua prudência cuidou para que nada faltasse aos seus companheiros; sua coragem repeliu os perigos; sua beneficência trouxe aumento e honra a seus súditos. Para eles, governar era um dever público, não um mero exercício do poder real. Nenhum deles tentou usar seu poder contra aqueles de quem o derivou; nem qualquer humano teve inclinação ou desculpa para fazer o mal, uma vez que um bom governante tem bons súditos; e um rei não poderia proferir maior ameaça contra os desobedientes do que serem exilados do reino. Mas depois, quando os vícios se instalaram e essas realezas foram convertidas em tiranias, a necessidade de leis começou a ser sentida; e, no início, as próprias leis foram formuladas pelos sábios.[10]
Além de viver harmoniosamente com a Natureza, o que impedia a existência dos vícios, também não havia o material sobre o qual eles poderiam surgir: a construção de coisas não necessárias para o trato com a vida. Havia irmandade entre os humanos por desfrutarem de toda a natureza em comum. Ela os protegia assim como a mãe a um filho justamente por fornecer-lhes seus recursos vitais. Esta é a era que Sêneca denomina a Era de Ouro.
Contudo, após o surgimento da técnica, o que podemos, semelhante a Ovídio, chamar de Era do Ferro, nasce dos seres humanos o luxo, a vaidade, a ganância, o desejo irracional, o medo, a vergonha da pobreza. Todas as emoções que encarceram a alma na medida em que, por causa delas, deixamos de entender e contemplar um conjunto de coisas que foram dispostas com a finalidade de garantir a perpetuação da vida. Os vícios fazem com que enxerguemos um mundo que a todo instante nos desampara. O que faríamos se um vento forte arrancasse os ornamentos de nossa casa, adquiridos a custo tão alto, mas não nos ferisse? Reclamaríamos da má fortuna e da violência com que a natureza arrasta todas as coisas ou enxergaríamos uma razão que nos quer mostrar o quão inúteis são essas coisas?[11]
O mais interessante é que Sêneca, assim como Ovídio, faz uma conexão entre a Era de Ouro e a juventude do Cosmos:
Mas não importa quão excelente e inocente fosse a vida dos homens daquela época, eles não eram sábios; pois esse título é reservado para a maior conquista. Ainda assim, eu não negaria que eles eram homens de espírito elevado e - se posso usar a frase - recém-nascidos dos deuses. Pois não há dúvida de que o mundo produziu uma progênie melhor antes de estar desgastada. No entanto, nem todos eram dotados de faculdades mentais da mais alta perfeição, embora em todos os casos seus poderes nativos fossem mais robustos que os nossos e mais adequados para o trabalho. Pois a natureza não concede virtude; é uma arte tornar-se bom.[12]
Todo esse comportamento primitivo valorizado por Sêneca, como podemos notar na citação acima, coincide com os momentos recentes do Cosmos. Eles eram os recém-chegados dos deuses (a dis recentes), vivendo em um mundo ainda não desgastado, (mundus nondum effetus ediderit), fazendo-os mais fortes e mais aptos para o trabalho. Podemos ver essa ideia em Zenão de Cítio. Conforme o fundador do estoicismo “... o princípio da humanidade foi estabelecido a partir de um ‘novo mundo’[...]. [13] Com a juventude do Universo os humanos eram felizes sem serem sábios,[14] pois a Natureza lhes fornecia uma perfeição que se assemelhava à sabedoria.[15] Não uma sabedoria aos moldes filosóficos, mas “uma sabedoria que é a adesão da razão a si mesma, isto é, de uma perfeição sem mediação: ignorantia rerum inocentes errant”.[16] Uma perfeição que se traduz na inocência, na razão que não tem consciência de si e nem dos movimentos harmônicos da physis. Visto dessa forma, a história da humanidade “é a da perfeição perdida e reencontrada”.[17]
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* Doutor em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia; Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe. Especialista em Ensino de Filosofia e Sociologia pelo Instituto Mantenedor de Ensino Superior da Bahia. Graduado em Filosofia Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe. Atualmente é professor efetivo de Filosofia no Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Sergipe. Faz parte do núcleo de sustentação do GT Epicteto (ANPOF). É pesquisador do Viva Vox (Grupo de Pesquisa em Filosofia Clássica) e do GPSET (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Sociedade e Políticas públicas do Instituto Federal de Sergipe). Parecerista da Primordium (Revista de Filosofia e Estudos Clássicos). Participou do projeto de tradução dos textos de Jamens Bond Stockdale que resultaram no livro "Coragem Sob Fogo: Testando as Doutrinas de Epicteto em um Laboratório Comportamental Humano". É o criador do Blog "Filosófico", local onde exerce o papel de divulgador da filosofia antiga, com foco no estoicismo.
Foto: A era de ouro, quadro de Pietro da Cortona (Palazzo Pitti, Florença, Itália)
[1] Ovídio, As Metamorfoses, I. Tradução de David Jardim Júnior.
[2] Ibid, loc. cit.
[3] Leis da República Romana aplicadas pelos pontífices e representantes da classe dos patrícios que as mantinham em segredo. Frequentemente aplicadas contra os plebeus. Fonte: https://www.infoescola.com/direito/lei-das-doze-tabuas/.
[4] Ovídio, As Metamorfoses, I. Tradução de David Jardim Júnior.
[5] Ibid, loc. cit.
[6] Ibid, loc. cit.
[7] Filha de Júpiter e Têmis, que vivia na terra durante a Idade do Ouro, partindo na Idade do Bronze.
[8] Ovídio, As Metamorfoses, I. Tradução de David Jardim Júnior.
[9] Sêneca, Ep., XC. 1.
[10] Ibid, loc. cit.
[11] Sêneca, Ep., XC. 40-43.
[12] Sêneca, Ep. XC, 44-45.
[13] Zenon Citieus, Stoicae sectae so conditor, principium humano generi ex novo mundo constitutum. putavit, primosque homines ex solo, adminiculo. divini ignis id est dei providentia, genitos. Censorinus de die nat. IV 10 (SVF I, 124)
[14] Levy, Carlos, Sêneca e a circularidade do tempo, p.501.
[15]Ibidem, p.501. Conforme S.E., Adv. Math, IX, 107, “o que <Platão> publicou é potencialmente o mesmo discurso que Zenão. Zenão também diz que o universo é um belo trabalho realizado com perfeição [I, 32,30] de acordo com a natureza; e também, de acordo com toda a probabilidade, criatura viva animada, cognitiva e racional. (=SVF I, 110).
[16] Ibid, loc. cit.
[17] Ibid, loc. cit.
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