Fake News: uma conversa entre Górgias de Leontinos, Epicteto e Galeno
Por Marcus Resende* in Quarka.com.br
Tudo aconteceu em uma pequena cidade do interior de São
Paulo, onde uma mulher foi assassinada na frente dos filhos. Logo surgiram as
notícias nos veículos de comunicação digital estampando em suas manchetes que a
mulher havia sido morta a tiros após briga por levar bolo e não salgado à
festa. É uma notícia tão estranha e fora do comum que não tem como evitar
perguntar como isso é possível, certo? Como uma pessoa pode ser morta por não
ter levado à festa o prato combinado? Certamente essa foi a pergunta de muitos
leitores que se depararam com a inusitada manchete. Três dias depois do
estranho anúncio, os mesmos veículos de comunicação publicaram que havia uma
nova versão para o crime. Uma testemunha não identificada afirmou que o
assassino estava discutindo com a esposa quando a vítima ofereceu um pedaço de
bolo à mulher envolvida na discussão, o que gerou um descontentamento do
agressor, que iniciou uma nova discussão com a vítima até assassiná-la com três
tiros. Será que estamos falando da mesma história? Embora o bolo faça parte do
enredo nas duas versões, na primeira ele é o motivo principal do crime, segundo
a polícia, enquanto na segunda, apresentada por testemunha anônima, o bolo perde
toda sua importância, visto que a vítima poderia ter interrompido a discussão
do casal por qualquer outro motivo.
Com o advento das mídias digitais o mundo de hoje
encontra-se perplexo com o crescimento absurdo de notícias desencontradas,
pouco apuradas ou investigadas. A digitalização da notícia não tem contribuído
para a melhoria da qualidade do conteúdo noticiado, e isso coloca todo o
jornalismo sob um sério crivo de desconfiança. A pressa em ser o primeiro a
noticiar (e hoje estamos falando de minutos ou segundos) tem sido prioridade em
detrimento da prudência de uma investigação criteriosa das evidencias
relevantes de qualquer fato jornalístico. O furo jornalístico que abre este
artigo é apenas mais um entre tantos outros que chegam diuturnamente aos computadores,
tabletes e celulares do cidadão comum, sejam de conteúdo policial, político,
econômico, educacional e etc. E esse quadro gera a seguinte pergunta: o que é
crível, afinal?
Longe de querer dirigir uma crítica específica ao mundo
jornalístico, observamos que o comportamento da notícia apressada (ou da falta
de critério investigativo para noticiar qualquer coisa) se reproduz entre as
pessoas comuns, visto que estas sustentam o mercado da notícia irresponsável,
reproduzindo-a imediatamente em seus aparelhos digitais. Todos nós, de alguma
maneira, já caímos nessa armadilha. Mesmo que a notícia trate de algo restrito,
trivial, do âmbito familiar, uma vez que caia em uma mídia social pode assumir
proporções inimagináveis.
Temos aprendido a chamar esse fenômeno de “fake news”, o
que parece ser importar desnecessariamente uma expressão do inglês, visto que
há séculos no nosso vernáculo esse fenômeno já vem sendo chamado de “falsa
notícia”, “boato” ou, simplesmente, “mentira”. É o fake news um fenômeno do mundo
digitalizado? Obviamente não, a falsa notícia se dá em função da própria
existência do ser humano (está presente nos textos mais antigos a que temos
acesso, na mitologia grega, nos textos bíblicos, e sempre fez parte das
estratégias de guerra entre povos), a mídia digital apenas acelera o processo
de propagação deixando a impressão de que o mundo no qual vivemos está pesado,
cansativo e chato. E está mesmo.
Os gregos identificavam
esse fenômeno como doxa, que em
português podemos traduzir como opinião. A opinião, “sendo incerta e
inconstante, lança a incertos e inconstantes sucessos os que a ela se confiam”
(GÓRGIAS, Helena 11), escreveu o
filósofo Górgias de Leontinos. A opinião também é uma falsa representação (phantasia) de um objeto ou fenômeno, ensinou o
filósofo Epicteto (Encheirídion XIXb)[ii]. A opinião é a base de construção da premissa
retórica que não tem nenhum valor na produção do conhecimento aceitável, elaborou
o filósofo Galeno (PHP II 3.11).
Vamos agora supor que estes três filósofos se deparassem
com a notícia sobre a mulher assassinada por causa de um bolo.
Górgias acabara de checar a notícia sobre a tragédia
causada por um bolo em seu smartphone grego, através do aplicativo Greekbook,
sentado em um bar localizado em uma das esquinas mais movimentadas do centro de
Atenas, acompanhado de Epicteto e Galeno. Depois de mais um gole de vinho
produzido na região da Sicília, Górgias dirige-se a seus amigos e exclama:
– Está cada vez mais difícil exercer o ofício da
retórica!
– Mas por que você diz isso, Górgias? Perguntou Epicteto.
– Veja, meu caro estoico. Parece que a sociedade na qual
vivemos não está mais preocupada em conhecer a verdade. Lendo essa notícia sobre
a mulher que foi assassinada por ter levado um bolo à festa, quando deveria ter
levado um salgado, me faz pensar que o noticiador apresenta esse tipo de
informação, que soa muito estranha, porque na outra ponta do Greekbook existe o
leitor ávido para consumir esse tipo de notícia. E não somente isso, esse
leitor propaga a mesma notícia com comentários de juízo muitas vezes bastante
agressivos.
– Mas meu caro Górgias, a que verdade você está se
referindo?
– Ora Epicteto, você sabe
que minha proposição filosófica não busca a verdade metafísica apresentada
pelos pré-socráticos, Platão ou Aristóteles. Aliás, no meu Tratado do Não-Ser[iv] eu deixo claro que não é possível conhecer as
coisas em sua essência, e mesmo que fosse possível conhecê-las não seria
possível compreendê-las, e mesmo que fosse possível compreendê-las não seria
possível falar sobre elas.
– Então você está propondo a suspensão de todo e qualquer
juízo?
– Em absoluto, querido
Epciteto, estou negando a possibilidade do conhecimento da essência da coisa,
advogando que o conhecimento produzido pelo homem não é capaz de fazer
afirmações finais e definitivas sobre qualquer assunto proposto. No entanto,
devemos buscar o conhecimento possível, mesmo que superficial, que seja
relevante na contribuição para que a ordem (kosmos) da sociedade
se torne possível. Estamos vivendo em um contexto político/social confuso e
parece que esse tipo de notícia sobre a morte de uma mulher em função de um
bolo em nada deve contribuir para essa ordem.
– Isso realmente parece ser grave, meu caro Górgias,
principalmente porque acabei de checar a notícia do Greekbook, através do
Greegle, e constatei que três dias depois do referido crime as notícias são
completamente diferentes. Agora aparece uma testemunha narrando uma nova
versão.
– Exatamente, replica Górgias. E o que vemos neste fato
jornalístico nada mais é do que uma reprodução do mesmo fenômeno noticioso que
lemos nos textos de Homero e Hesíodo. Destaco aqui a difamação pública de
Helena, que foi responsabilizada pela guerra de Tróia, quando, na verdade, os
grandes responsáveis eram Menelau e Paris. Mas essa notícia falaciosa foi
reproduzida por todos, sem questionamentos ou apuração dos eventos. Trago
também à tona a condenação à morte de Sócrates, acusado erroneamente de ser um
destruidor da juventude grega. Posso também citar o caso de Palamedes, que
denunciou a farsa de Odisseu para não ir à guerra de Tróia e por isso também
foi condenado à morte, sob a falsa acusação de ter roubado e traído os gregos.
– Mas a que se deve tudo isso, meu amigo Górgias?
Pergunta Galeno, que também acabara de checar as notícias sobre o crime do bolo
em seu tablete romano.
– Ora, responde Górgias,
identificamos o limite do discurso, mesmo que este esteja comprometido com a
possível verdade dos acontecimentos. No caso de Palamedes, Odisseu não foi
capaz de encontrar testemunhas que sustentassem suas falsas acusações, mas
Palamedes também não poderia produzir testemunhas de defesa para um evento que
nunca aconteceu. Somente o discurso logicamente estruturado poderia ser usado
em sua defesa, e isso não foi suficiente para a conquista de sua absolvição. E,
por que isso acontece, meu caro Galeno? Porque tanto o discurso comprometido
com a verdade quanto aquele comprometido com o falso são persuasivos. Quantos persuadiram e persuadem outros tantos a propósito de
outras tantas coisas forjando um falso discurso? E no substrato do
discurso falso está a opinião, que muitos chamam hoje de fake news, de modo que os muitos, sobre muitas coisas, buscam com a alma a
opinião conselheira. E a opinião, sendo incerta e inconstante, lança a incertos
e inconstantes sucessos os que a ela se confiam.
– Górgias, essa conversa assume um direcionamento que
muito me interessa, visto que também tenho algo a dizer sobre a opinião, diz
Epicteto, pois sobre isso tenho falado com meus alunos. O que você acha Galeno?
– Também tenho interesse
em falar sobre o tema, tenho escrito sobre o assunto em minha obra chamada PHP, responde Galeno.
– Ótimo, meus amigos,
então me deixe acrescentar algo mais sobre a opinião, diz Górgias. A opinião
não está presente e forte somente nas frágeis matérias jornalísticas, onde
percebemos que o jornalista está mais preocupado em apresentar sua
interpretação antes do esclarecimento dos fatos, mas está também em muitas
expressões e formas de conhecimento, como podemos observar nos discursos dos meteorologistas, os quais, descartando uma opinião
por preferência a outra opinião por eles engendrada, fazem surgir coisas
inacreditáveis e invisíveis aos olhos através da opinião. A opinião também está presente nas assembleias, nas quais um discurso, composto por arte, mas sem
dizer verdades, encanta e persuade numerosa multidão. Acrescentaria
aqui também que a opinião está presente entre os filósofos, em seus embates
filosóficos, nos quais a rapidez do pensamento se mostra
modificando facilmente a crença na opinião.
– Não é exatamente isso que identificamos nas discussões
de hoje? Pergunta Epicteto.
– Parece ser exatamente
isso, responde Górgias. O discurso é como um remédio, que aplicado a uns suprime a doença, e a outros suprime a vida. Assim também, entre as palavras, umas afligem, outras encantam,
outras amedrontam, outras estabelecem confiança nos ouvintes, outras ainda,
através da sórdida persuasão, envenenam e enganam a alma. No caso
da notícia em questão, onde devemos enquadrar sua atuação, há algo de bom que
possa aproveitado?
– Desculpa interromper seu discurso, meu amigo Górgias, e
entrar no mérito de sua questão, diz Epicteto. “As coisas não são boas ou más,
mas as opiniões é que as julgam assim”. Para evitar o domínio da opinião precisamos
refletir sobre todas elas, para termos a certeza de que não estamos dando
terreno a uma representação equivocada das coisas. No caso da notícia do bolo,
precisamos, antes de emitirmos nossa opinião, refletir sobre a representação
que o jornalista apresenta do caso. A pergunta é: sua representação se
sustenta?
– A opinião nunca sustenta uma formulação válida de
conhecimento, responde Galeno.
– Se a representação da coisa significa conhecimento da
verdade entramos em uma discussão sem fim, visto que a palavra não é capaz de
descrever a coisa em si, afirma Górgias.
– Ora, meus amigos, é possível que o jornalista
responsável pela matéria esteja vivendo no mundo da dependência das opiniões,
tendo na opinião alheia o referencial de sustentação do seu status
profissional, quanto mais likes no greekbook, melhor aparece na avaliação de
seus patrões e patrocinadores, diz Epicteto. Esse é o fenômeno de colocar a
felicidade na dependência da opinião alheia, que observamos em nossos dias.
Saímos dos manuscritos e entramos na nova era da digitalização, que abriu a
possibilidade da exposição da exterioridade do indivíduo, criando uma
dependência da opinião alheia, ao ponto de que doenças da alma se manifestam
quando alguém que publica algo no greekbook não recebe elogios ou comentários.
Longe de ser uma experiência de liberdade, essa é uma experiência de
escravização. E sobre ser escravo posso falar com propriedade, visto que a
maior parte de minha vida vivi sob escravidão. Mas o meu senhor nunca foi dono
de minha alma, apenas do meu corpo. O escravo não é aquele possuído pelo
físico, mas aquele dominado pelo medo das paixões das opiniões.
– Como isso se manifesta, Epicteto? pergunta Galeno.
– Galeno, as coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. A morte, por exemplo, nada tem de terrível…, mas a opinião sobre a
morte – de que ela é terrível – é que é terrível. Veja o caso de
Sócrates, que por não se permitir ser afligido pela opinião sobre a morte
enfrentou sua sentença e bebeu sua cicuta sem dramas. O que nos aflige não são
as coisas, mas as nossas próprias opiniões sobre elas.
– Epicteto, em certa
ocasião eu estava colecionando todos os meus manuscritos, cerca de setecentos,
em um só lugar na cidade de Roma para enviá-los a outra cidade e fazer cópias
para atender solicitações de amigos, quando todos foram praticamente destruídos
por um incêndio. No mesmo lugar havia muitos manuscritos de um amigo
matemático, que também foram consumidos pelas chamas. Não foi uma experiência
fácil, mas resolvi reescrever o que fosse possível e continuar a vida. Já meu
amigo matemático entrou em uma profunda depressão e chegou ao suicídio. Durante
meu sofrimento lembrei-me de tuas palavras registradas em seu Manual que nos diz que não devemos colocar o
nosso foco nas coisas que estão fora do nosso controle, e que não devemos buscar que os acontecimentos aconteçam como queremos,
mas que aconteçam como acontecem, e nossa vida terá um curso sereno.
Esse foi também o exercício de Sócrates?
– Certamente, Galeno, a
opinião como expressão de um pensamento negativo é capaz de arrebatar e tornar
a pessoa enferma. Jamais, a respeito de coisa
alguma, digas: eu a perdi, mas sim: eu a restituí. O filho morreu? Foi
restituído. A mulher morreu? Foi restituída. A propriedade me foi subtraída,
então também foi restituída. Se queres progredir, abandona
pensamentos como este: se eu descuidar dos meus negócios, não terei o que
comer…, pois é melhor morrer de fome, sem aflição e sem medo, que viver
inquieto na opulência. Ao veres alguém preferido em
honras, ou muito poderoso, ou mais estimado, presta atenção para que jamais creias – arrebatado pela representação – que ele seja feliz.
A representação de que este seja feliz em função de suas posses ou honrarias é
uma manifestação da opinião que escraviza.
– Epicteto, no meu trabalho de professor de retórica
ensino aos meus alunos que o debate retórico deve começar com um estímulo ao
interlocutor para que este exponha suas ideias. Somente a partir daí é que o
retor preparado será capaz de identificar as ambivalências e falsidades de seu
pensamento. O partejar das ideias, atribuída a Sócrates, é, na verdade, prática
comum na retórica sofista.
– Entendo, Górgias. Na minha prática de ensino, quando
falo sobre as representações das coisas, também falo que devemos possuir o
juízo correto sobre elas, ou seremos dominados pela opinião. No caso da matéria
jornalista que suscita essa longa conversa, devemos perguntar: a representação
(interpretação) do crime apresentada pelo jornalista passou pela análise do
juízo correto? Como uma mulher pode ser brutalmente assassinada por ter lavado
um bolo à festa?
– Desculpa interrompê-lo, querido Epicteto, mas agora
você entrou no campo do conhecimento e tenho algo a dizer sobre isso,
manifesta-se Galeno. Tenho travado uma luta grande com outros filósofos sobre a
forma de conhecimento confiável, que esteja mais próximo do experimento e da
razão e mais afastado da opinião e das falsificações retóricas. Entendo que quando
você afirma que devemos avaliar a representação de um fato ocorrido pela
análise do juízo correto, você está falando em colocar a razão em primazia
sobre a paixão da opinião, certo?
– Correto, Galeno.
– Pois bem, caros Górgias
e Epicteto, como filósofo e médico tenho dedicado minha vida a denunciar a fragilidade
do conhecimento construído sobre a opinião, e o que caracteriza a opinião é que
ela é fundamentada a partir de exemplos geralmente aceitos e
cotidianos e de certas induções do mesmo tipo de testemunhas[xv]. Vejamos, por exemplo, o caso do bolo: onde está a
fundamentação da estranha informação apresentada pelo jornalista?
– Me parece que os policiais fizeram o relato, reponde
Górgias.
– Quais policiais? Pergunta Galeno. Aqueles que primeiro
atendem as ocorrências? São eles investigadores treinados em uma metodologia
científica de investigação? São peritos criminais? E aqui está outra
característica da opinião, ela não está preocupada em investigar coisa alguma,
basta a primeira informação chegar que logo a indução para conclusões falsas se
estabelece. E essa não é somente a experiência desse jornalista imprudente, é
também de todos nós que vivemos apressados para tecermos conclusões sobre todo
e qualquer assunto. Eu sou médico e amigo pessoal do imperador Marco Aurélio,
um homem prudente, que reflete muito antes de tomar decisões difíceis que a posição
exige, um sério estudioso do estoicismo, mas que diariamente sofre pressões no
greekbook vindas de seus adversários que simplesmente opinam sobre tudo. E isso
se torna uma onda gigantesca de replicação de opiniões.
– Eu gosto de chamar isso,
Galeno, de arrebatamento pela representação, diz Epicteto. Quando a
representação não é avaliada a partir de um juízo correto é plenamente capaz de
arrebatar a pessoa. Também ensino aos meus alunos que se aspiras à filosofia, prepara-te, a partir de agora – para quando
te ridicularizarem; para quando rirem de ti; para quando indagarem:
‘subitamente ele nos volta filósofo’? e ‘De onde vem essa gravidade no olhar’?
Não adquiras tal gravidade no olhar, mas, como quem é designado a esse posto
pela divindade, agarra-te às coisas que se afiguram as melhores para ti. Lembra
que, se te prenderes a essas mesmas coisas, os que primeiro rirem de ti depois
te admirarão. Mas se te deixares vencer por eles, receberás as risadas em dobro[xvi].
– A questão, Epicteto, é
que a opinião da qual estamos falando trabalha com falsas premissas, afirma
Galeno. O argumento se origina em tipos de premissas que esperam crédito como
estando de acordo com testemunhas ou da multidão, mas não com a natureza da
coisa em si. Qualquer pessoa, portanto, que tente
demonstrar alguma coisa, deve primeiro ter aprendido as diferenças nas próprias
premissas; então deve ter passado por um longo treinamento; quando outro está
falando, deve ser capaz de reconhecer pelo que é dito o tipo de premissa que
está sendo usada; e quando outro não está falando, deve encontrá-las
rapidamente para todos os problemas[xvii]. O
que preocupa, como disse Górgias, é que muitos filósofos são replicadores de
opiniões e deles também tenho sido alvo de agressões variadas.
– E por que parece que estamos vivendo a era da opinião?
Não é interessante que nós três já escrevemos e ensinamos sobre o mesmo
assunto? Perguntou Górgias.
– Porque a opinião tem pressa em julgar, responde Galeno.
Mesmo Aristóteles se deixou sucumbir pela opinião quando não teve paciência
para dissecar um cadáver e observar que os nervos do corpo humano saem do
cérebro, e não do coração, como ele afirmou. A opinião também procura o suporte
de fracas testemunhas e não tem o suporte de especialistas. E mesmo os especialistas
podem ser divulgadores de opiniões, muitos dos meus colegas médicos desejam a
minha morte porque a minha experimentação científica contraria suas opiniões,
que eles divulgam como científicas. Enquanto salvo vidas com diagnósticos
corretos e tratamentos eficientes, eles deixam perecer seus pacientes por
completa ignorância da metodologia científica.
– Galeno, eu já disse que a opinião pode ser muito
persuasiva e seduzir completamente e Epicteto afirmou que a opinião como uma
representação mal avaliada pode arrebatar a pessoa. O que você entende sobre a
persuasividade da opinião?
– Górgias, eu diria que existe a falsa opinião e a
opinião correta, a diferença entre elas está no referencial metodológico. A
falsa opinião diverge da realidade e engana aquele que nela acredita,
exatamente porque tem o poder de ser muito persuasiva, diferente da verdade
fundamentada, que nem sempre é persuasiva.
– Galeno, afinal de contas, porque a mulher foi
assassinada? Perguntam Górgias e Epicteto.
– Não faço a mínima ideia, reponde Galeno. Qual a opinião
de vocês? Garçom, mais um vinho siciliano, por favor!
*Membro do Viva Vox, grupo de pesquisa em filosofia antiga da UFS. Membro
do GT Epicteto. Doutorando em Filosofia na Universidade Federal de Sergipe
(UFS). Autor do livro A Retórica Política do Kosmos Social. Mestre em Filosofia
pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Pós-Graduado "Stricto
Sensu" em Administração de Empresa (MBA) pela Campbellsville University
(Estados Unidos). Pós-Graduado "Lato Sensu" em Gestão Estratégica de
Marketing pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). Pós-Graduado "Lato
Sensu" em Comunicação Social - Propaganda e Publicidade pela Unifor
(Universidade de Fortaleza). Licenciado em Filosofia pela UECE (Universidade
Estadual do Ceará). Bacharel em Teologia pelo STBNB (Seminário Teológico
Batista do Norte do Brasil).
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