O CONCEITO DE PATHOS EM ZENÃO E CRISIPO
Por Joelson Nascimento[1] in Prespectiva Filosófica, vol.47, N.1, 2020
O objetivo deste
trabalho é o de investigar o conceito estoico de pathos em Zenão e
Crisipo. Trabalharemos com esses dois autores porque eles forneceram a base
para o conceito de pathos usada por filósofos estoicos posteriores, além
de uma mudança de rota conceitual. Para tal intento, usaremos como fonte os fragmentos
dos estoicos antigos, encontrados no Stoicorum Veterum Fragmenta, e o
texto de Richard Sorabji intitulado Zeno and Chrysippus on emotion.
Palavras~chave: pathos, impulso, juízo.
ABSTRACT
The aim of this work is to
investigate the Stoic concept of pathos in Zeno and Chrysippus. We will
work with these two authors because they provided a basis for the concept of pathos
used by later Stoic philosophers, in addition to a change in conceptual route.
For this purpose, we will use as sources the fragments of the old Stoics, found
in the Stoicorum Veterum Fragmenta, and the text by Richard Sorabji
entitled Zeno and Chrysippus on emotion.
Keywords: pathos, impulse, judgment.
1. INTRODUÇÃO
O termo pathos transita em um duplo caráter: passivo e ativo. Passivo, porque surge em nós mediante uma afeção sofrida por algo externo. Ativo, porque ao sermos afetados, reagimos de maneiras variadas. Por vezes, é dado a ele um valor tanto positivo quanto negativo. O guerreiro da época homérica, por exemplo, quando tomado pela hybris[2], lutava contra diversos inimigos como se possuído pelos deuses. Por outro lado, não mais era encontrado este ser no exército espartano, onde a forma de falange não permitia essa façanha, para eles, descontrolada e irracional. O que dizer de uma alma que não deve ser comandada pelas emoções, porque isso representaria incapacidade de governar uma cidade, como vemos em Platão? Todas essas características vão ganhar um contorno particular no estoicismo: o conceito de pathos irá se misturar a uma ideia de cosmos, a qual colocará todas essas características dentro de um único conceito. Acreditamos que isso traz como consequência as inúmeras traduções sobre termo grego. Sorabji[3], por exemplo, o traduz por “emoção”; a tradução por “paixão”, enraizada na tradição filosófica ocidental, é usada por especialistas do estoicismo como Inwood[4] e Long-Sedley[5]. Para Tieleman,[6] o termo “paixão” não seria uma boa alternativa, pois indicaria, no geral, alguém acometido de uma emoção muito forte, em particular o desejo sexual, e, por isso, prefere “afecção” porque condiciona ao argumento de Crisipo ao fazer uma analogia do pathos como uma doença da alma. Nussbaum[7] usa o termo “sofrimento” (embora com referência especial a Epicuro), no entanto, ao enfatizar o elemento da passividade, ofusca o aspecto ativo envolvido na definição técnica estoica de pathos como um tipo particular de conação ou impulso (hοrme). Por não ter, no momento, uma razão específica que nos leve a escolha de um conceito mais apropriado, usaremos o termo emoção.
2. O IMPULSO (HORMÉ).
Pertence a ortodoxia estoica a
comparação da filosofia a um ser vivo[8]
onde ossos e nervos corresponderiam à lógica; carne, à ética e alma, à física,
ou seja, partes distintas que se unem em um todo harmônico. Por ser dessa
forma, ao tratar de quaisquer temas pelo viés estoico, temos de realizar o que
chamamos de “movimentos obrigatórios”, isto é, devemos compreender como o tema
se comporta em suas partes distintas e remontá-los em uma ideia central. Seria
muita pretensão, neste texto, dar conta de tamanho escopo, apesar disso, vamos
tentar entender o termo pathos sem nos aprofundar em demasia nessas três
instancias.
A
física estoica nos diz que o universo[9] está fundamentado em dois
princípios: ativo (to poion) e passivo (to paschon)[10]. Segundo Crisipo[11], o elemento primordial que contém
esses dois princípios é o Fogo, compreendido pelos estoicos também como Deus, lógos,
fogo artícife. O processo de criação inicia com parte do elemento primordial
transformando-se em Ar por condensação. Através de semelhante processo, parte
do Ar transforma-se em Água, e, por último, por compressão, parte da Água em
Terra. O primeiro par de elementos forma um composto ativo conhecido pelos
estoicos por pneuma. O segundo, um composto passivo conhecido por matéria (hyle).
Após esse processo, o pneuma invade a matéria dando a ela formas e
qualidades distintas. Por conseguinte, apesar de os estoicos explicarem o
funcionamento desse processo de forma a identificarem todos os elementos
envolvidos, Conforme Long[12], nunca os veríamos de
forma individualizadas, isto é, nunca os veríamos fora de um composto.
O pneuma, ao perpassar e compor os corpos
diferenciando-os e qualificando-os, gera um movimento para dentro e para fora chamado
pelos estoicos de tônus. Ele opera em diferentes níveis: o nível da hexis
(disposição) é o movimento do pneuma nos corpos inanimados; o nível
da physis (natureza) nas plantas; o nível da psyche (alma), nos animais;
e o movimento do pneuma nos seres humanos, hegemonikon[13]
(capacidade diretriz)[14]. Nos seres inanimados, o movimento do pneuma uni os corpos; nas
plantas, além de unir os corpos, dá a capacidade de nutrição e reprodução; nos animais,
seu movimento dá a capacidade de captar o mundo pelos sentidos além de dar
a função procriativa e, nos seres
humanos, além de todas as citadas, à função da fala e da razão[15].
Ou seja, nos seres humanos, o pneuma em forma de hegemonikon converte
os dados captados pelos sentidos em juízos, juízos em ações comportamentais,
além passar adiante suas características a outros seres da mesma espécie
mediante à reprodução. Mas o que nos
interessa é sua capacidade de captar, mediante os sentidos, uma imagem do mundo
e transformá-la em algo comunicável que sirva de base para nossas ações. Para
que esse o processo ocorra, o pneuma hegemônico deve sofrer uma afecção causada
pela exterioridade: a isso os estoicos chamarão de phantasia:
Crisipo
diz diferirem estas quatro coisas. Phantasia, com efeito, é afecção que
ocorre na mente, mostrando em si mesma também o que a produziu. Por exemplo:
quando, através dos olhos, vemos algo branco, é afecção o que ocorre através da
visão na mente. Também <segundo> isso se diz que temos afecção porque o
branco que subjaz nos move.[16]
Há também movimentos
internos que se relacionam com o modo de compreendermos as phantasiai. A
oikeiosis, termo traduzido por “apropriação” ou “‘familiarização”[20], é um impulso que guia
plantas, humanos e animais em sua relação com os objetos exteriores, a exemplo
dos laços afetivos, sentido de autopreservação e alimentação[21].
Desde os primeiros dias de vida, animais e seres humanos têm percepções
internas e externas que os fazem cientes de suas partes corporais e do modo
correto de como usá-las. Eles percebem, também, fraquezas inerentes a órgãos do
corpo e buscam maneiras de protegê-los. Essa primeira familiaridade adquirida
por uma criatura ao nascer é chamada de próton oikeion:
O
melhor ponto inicial para os elementos da ética é a primeira coisa que lhe é
própria ou familiar, o próton oikeion de um animal. Para determinar o
que é, deve-se primeiro de tudo considerar que o início de uma vida animal é o
nascimento, quando a physis, na qual plantas também compartilham, é
transformada em psyche. [22]
De
fato, seria improvável que a natureza tornasse a criatura estranha a si mesma e
que a natureza que a gerou a manteria como estranha e não como familiar.
Portanto, resta apenas dizer que a natureza organiza a criatura para que dela
se aproprie. Desse modo, de fato, rejeita por si mesmo o que a prejudica e
admite por si mesma o que é apropriado para ela. [23]
Zenão divide o impulso
patológico em quatro gêneros principais e diversas espécies.[31]
Os quatro gêneros principais são: (1) dor: é uma contração irracional. Suas espécies
são a compaixão, a inveja, o ciúme, a rivalidade, o peso, o aborrecimento, a aflição
e a angústia; (2) medo: é
uma antecipação do mal. Suas espécies são: o terror, o tremor (alarme), a vergonha,
a consternação, a confusão mental (pânico) e a agonia; (3) apetite: é um desejo
irracional. Suas espécies são: a carência, o ódio, a contenciosidade, a
ira, o amor passional, a cólera e o ressentimento; (4) prazer: é uma expansão
irracional. Suas espécies são o encantamento, a alegria maldosa, o deleite
perverso e o transporte perverso (dissolução da virtude).[32]
Cada uma dessas emoções está envolta em juízos: lembremos que todo
movimento excessivo surge de uma phantasia acataléptica, e, nos seres humanos, se existe phantasia, existe conteúdo
proposicional. Um
exemplo seria entender a avareza como uma opinião de que o dinheiro é
algo bom. Apesar disso, nos diz Sorabji[33], Zenão afirma
que esses juízos não são condições suficientes para o surgimento das emoções. Já
Crisipo as identificará precisamente como juízos.
Quando
alguém anda em acordo com seu impulso, o movimento das suas pernas não é
excessivo, mas comensurável com o impulso, então, ele pode parar sempre que
quiser... [mas quando] o movimento de suas pernas excede seu impulso, perdem o
controle e são incapazes de mudar obedientemente, tão logo comecem a correr.
Algo similar, eu penso, acontece com o impulso, devido a ir além da proporção
racional... O excesso na corrida é chamado de contrário ao impulso, mas o
excesso no impulso é chamado de contrário à razão.[36]
De
acordo com Long e Sedley[37],
Crisipo entende que os juízos são convertidos em movimentos corporais
intencionais[38],
fazendo do impulso causa eficiente de uma ação. Uma pessoa que age
de forma avarenta, parte da opinião de que o dinheiro é uma coisa bela. E assim
funciona para todas as outras emoções[39]. Essas más opiniões conduzem
os indivíduos de forma a desobedecerem à sua razão, caracterizando dessa forma,
em Crisipo, o pathos.
Algumas
das ações erradas dos homens são referidas por Crisipo como a faculdade de
julgar, outra à falta de tensão e fraqueza do espírito, tal como suas ações
corretas serem guiadas por um juízo correto junto com uma boa tensão do hegemonikon.
Ele diz que existem momentos que desistimos de uma decisão correta porque a
tensão do hegemonikon se entrega, e não persiste até o fim ao executar
completamente os comandos da razão.[40]
Ao nos rendermos, estamos prontos
para trair amigos e cidades, e nos entregar a muitas ações indecentes, tendo o
enfraquecimento em nós o impulso para as ações opostas. É assim que Menelau foi
encenado por Eurípides: desembainhou a lâmina. Ele ataca Helena com a intenção
de tirá-la do caminho, mas olhando para ela, ele fica atordoado por sua
atratividade e, agora incapaz de dominar a lâmina, joga-a fora. E a repreensão
em pessoa diz-lhe assim: 'Você, como viu o peito, jogou fora a espada, aceitou
o beijo, acariciando a ... traidora' "[43].
A mente continua sendo o local da responsabilidade moral ainda que tenha sua tonicidade comprometida. Uma phantasia, por exemplo, pode induzir em nós o desejo de andar, mas a causa completa ou, como diz Tieleman[44], a “sustentação da ação”, encontra-se na capacidade diretriz, isto é, na decisão de andar-- durando enquanto a sustentação da causa se mantiver. Mesmo sendo a força exercida pelo pathos sobre o pneuma hegemônico maior do que a força exigida pela natureza[45](oikeiosis), a responsabilidade permaneceria porque na filosofia estoica isso não se dá pela perda da razão, mas pelo assentimento (sinkathatesis) que damos aos falsos juízos. Para Crisipo[46], uma mente que entende ser o dinheiro bom, não seria o problema, mas achar que o dinheiro é o maior dos bens e acreditar não ser digno viver entre pessoas que não o tem, sim.
Crisipo
também afirma que o pathos perde sua intensidade com o tempo, apesar da
opinião que a gerou, não[47].
Isso se dá porque a qualidade da contração ou expansão torna-se diferente por não
levar em consideração o que ocorreu. Podemos manter a opinião de que algo é
ruim durante muito tempo[48], mas essa mesma opinião
não terá mais a força para manter o impulso em sua maior intensidade quando em
estágio inicial.
5.
ANÁLISE DO CONCEITO DE PATHOS
EM ZENÃO E CRISIPO POR RICHARD SORABJI.
Conforme
Sorabji[49], tanto Zenão quanto
Crisipo falam do pathos em sentido geral (quatro gêneros principais) e
específico (espécies de emoções). Crisipo o identifica como juízos, Zenão, por
sua vez, o pensou fisicamente como contrações e expansões do pneuma
hegemônico em relação ao prazer e a dor: os juízos, neste contexto, são
consequências desse movimento involuntário. Disposto de forma organizada, temos
em Zenão o pathos como um impulso excessivo (pleonazousa hormê),
movimento irracional do espírito e contrário à natureza, como inclinação (orexeis)
e fuga (ekkliseis) e como movimento repentino (ptóia).[50] Já em Crisipo, dois tipos
de juízos são identificados a partir dos quatro gêneros principais: o juízo
sobre o que é bom ou ruim e o juízo sobre qual a ação mais apropriada (kathêkei).
No caso do apetite e do medo, o correto é supor que o prazer é um bem e a dor
um mal, o que levaria a concluir serem apropriadas a expansão que sentimos ao
termos prazer e a contração quando sentimos dor.
Sorabji[51] analisa uma explicação dada
por Galeno[52]
sobre o entendimento de Crisipo sobre o conceito de emoção em Zenão. Para este,
pathos é uma desobediência, desvios à razão (apostrephesthai e diastrephesthai)[53]. Crisipo, conforme
Galeno, entende esses “desvios” zenonianos como indução ao erro (diêmartêmenôs
pheresthai), ou negligência à razão (paridon ti kata to logon). O
exemplo fornecido por Crisipo, para essa “desobediência”, é o de Ifigênia em
Aulis, quando Agamenon crê que correto é o sacrifício de sua filha a fim de
que o exército grego pudesse continuar sua viagem. Aqui temos a imagem de um
falso juízo que, para Galeno, configura, no entendimento de Crisipo, o próprio pathos.
Todavia, a interpretação zenoniana feita por Crisipo, segundo Sorabji,[54] pressupõe um significado
de pathos que não o identifique somente como “desvios à razão”, mas como
contrário ao melhor juízo. Galeno usa outro exemplo dado por Crisipo que se
encaixa melhor na visão zenoniana. Ao cometer o assassinato contra os próprios
filhos, para se vingar de Jason, Medeia, ao contrário de Agamenon, tinha noção
exata do peso moral de sua ação. Ela não pensou que uma ação moralmente errada fosse
a mais correta, semelhante ao que pensou o rei grego. Houve uma reflexão, por
parte de Medéia, antes da ação, mostrando sua consciência sobre o ato se
distanciar dos padrões morais e, como vimos acima com a oikeiosis, dos impulsos
naturais. Houve um assentimento ao juízo de vingança, identificado por Crisipo
como um segundo juízo que surge do primeiro: qual ação mais apropriada. O caso
de Medeia, por aparentar uma mente dividida entre agir corretamente ou não, torna-se
contrário ao de Agamenon. Neste, não há um conflito entre uma ação boa e má, pois
se ele desprezava a vida de sua filha, a
emoção não estaria em desprezar a própria filha, mas no desejo de vingar-se dos
troianos e no medo de que a tempestade não o permitisse, --- o que faz esse
exemplo não caber nos critérios zenonianos,
Conforme Sorabji[55], parece que o ideal de (apatheia)
proposto por Zenão seria o de libertar os seres humanos de emoções como as
protagonizadas por Medéia. No entanto, ao rechaçar tais emoções, surgiria uma
tranquilidade oriunda do fluxo natural do pneuma hegemônico. Para
Crisipo, ao erradicar as emoções, ainda as teríamos como eupatheiai[56] (boas
paixões). Nesse sentido, o pathos
pode ser qualificado como protagonista de ações tanto boas quanto más.
Um
outro ponto destacado por Sorabji[57] é que apesar do impulso estar
na teoria zenoniana e crisipiana, o motivo que levaria Crisipo a não considerar
o pathos especificamente como impulso é que geralmente entendemos o
impulso como um processo instintivo, contrário ao juízo, e, neste caso, seria contraditório
afirmar que emoção é um impulso. No entanto, existe uma visão estoica ortodoxa dos
impulsos serem entendidos como juízos, isto é, como assentimento à uma phantasia
ao se crer que uma ação seria a mais correta. Estobeu[58] confirma o exposto ao
afirmar, em primeiro lugar, que o impulso é um assentimento, em segundo, que o
impulso é uma aparência impulsiva de que algo é apropriado.
Para
Sorabji[59],
há também uma clara evidencia de que Zenão não exige, como no caso de Crisipo,
que os julgamentos envolvidos na emoção sejam unicamente falsos: ao observar os
atos de Medéia, ela aparenta oscilar entre juízos falsos e verdadeiros. A
existência dos juízos falsos em Zenão se dá porque todas as coisas, exceto o
caráter, seria uma questão de indiferença.[60]
Nesse caso, pode-se explicar o motivo de os julgamentos causadores de emoções serem
equivocados, pois normalmente julgamos como boas ou ruins coisas que não são
nem boas nem más. O exemplo de Alcebíades[61],
fornecido por Cícero, nos dá um exemplo.
Alcibíades
estava angustiado porque entendeu possuir um caráter ruim. O juízo dele estava
correto, pois o caráter é um não indiferente. Mas, se ele estava angustiado por
algo verdadeiro, não seria apropriado sentir uma contração? Crisipo, nos diz Sorabji[62],
resolve esse problema ao insistir repetidamente na falsidade de um segundo
julgamento envolvido no pathos: o julgamento sobre a ação apropriada.
Alcibíades estava certo em jugar seu caráter ruim, mas estava errado ao se
angustiar, pois a reação apropriada, neste caso, teria sido a de tentar
melhorar seu caráter. Não temos, afirma Sorabji, registro de Zenão distinguindo
juízos sobre algo bom ou ruim e juízos sobre ações apropriadas ou não. Se ele
tivesse considerado o caso de Alcibíades, Zenão teria que trabalhar duro para
dizer onde a falsidade do julgamento estaria. O que está mais explícito nele é
o conflito de juízos, o que o torna diferente de Crisipo, por ter neste, pelo menos,
necessariamente um dos juízos falsos para ser considerado pathos.
Sorabji[63]
diz existirem dois outros motivos que levaram Crisipo a distinguir um segundo
julgamento no pathos Primeiro, o segundo juízo sendo mais calmo,
torna-se fácil seu refreamento; segundo, o juízo sobre qual a ação mais
apropriada serve como uma correção de rota em sua teoria, porque seguindo seu
pensamento, por vezes a angústia desaparece no segundo juízo, mesmo
permanecendo o primeiro, e, o impulso, no sentido de uma contração, desaparece[64].
Sorabji comenta que nenhum desses motivos parecem estar conectados com a teoria
zenoniana, embora ainda mantenha a ideia de que toda emoção é impulso ao parecer
exigir que seja, pelo menos, causada por um julgamento sobre qual ação é mais
apropriada.
Para
Sorabji[65],
Zenão afirmou também que julgamentos sobre coisas danosas e benéficas não são
suficientes para o pathos, dando a entender que ele não apenas pareceu
ter tratado os juízos de valor de Agamenon como não causadores de pathos,
mas também salientado que o fenômeno da dor
e do prazer podem desaparecer, mesmo que o julgamento do bem ou do mal esteja
intacto. Sua própria solução, no entanto, não é, como em Crisipo, na insistência
de manter intacto um segundo julgamento, mas simplesmente inserir o requisito
de que o juízo seja recente, para causar essas emoções.
Sorabji[66]
salienta que Crisipo foi mais original
do que Zenão ao identificar pathos com juízos, mais precisamente, falsos
juízos, apesar disso, este contribuiu bastante para a filosofia estoica, pois ao
unificar o conceito de pathos como impulso e o dividir em quatro gêneros
principais, ele cria o modelo que será usado por todos os estoico posteriores.
O juízo, o qual Crisipo entende ser a emoção em si mesma, já surge em Zenão
como consequência de toda emoção. Ele também Introduz a ideia de que todas as
coisas, excetuando o caráter, são indiferentes (algumas coisas são mais naturalmente
preferidas do que outras) e o conceito de pathos como desobediência à
razão. Em nossa opinião, tanto Zenão quanto Crisipo procuram uma forma de
manter o pneuma hegemônico em harmonia. Em ambos as emoções estão
envolvidas com opiniões falsas sobre o mundo. Em Zenão, essas opiniões são consequências
do pathos entendido como um impulso excessivo. Em Crisipo, a opinião falsa
configura a própria emoção. Mas apesar dessa diferença, em ambos há uma
responsabilidade moral do ser humano em tornar-se o mais harmônico possível com
o universo.
Por fim, o que é o pathos? Já no útero da mãe o corpo
humano entra em contato com o que é propício à vida, pois é o local onde o
corpo tem a experiencia do prazer. Ao nascer, esse conforto é perdido, fazendo
com que o corpo entre em contato com as coisas que podem tirar sua existência: é
neste momento que o corpo conhece a dor. Isso significa que a rejeição a tudo
que lhe traga dor e a busca de tudo o que lhe traga prazer é um movimento pneumático
natural. Ao longo da vida, esse movimento é bombardeado pelas phantasias
que o fazem alterar seu fluxo. Ao ser afetado, o pneuma hegemônico
cria juízos sobre o mundo, reunindo, durante esse processo, uma gama de
opiniões sobre coisas que lhes dão prazer e medo, isto é, sobre as coisas que
devem ser buscadas ou evitadas. É a partir desse cabedal de juízos que há uma
interpretação do mundo. No entanto, quase sempre, não diferenciamos o que deve
ser buscado, evitado e nem buscado, nem evitado. Esse erro de julgamento faz
com que não interpretemos o mundo devidamente, assim, toda vez que compreendemos
uma phantasia mediante nossos falsos juízos, agregamos valores às coisas
que não as possuem verdadeiramente, e evitamos as que realmente nos faz bem,
além de buscar ou evitar as que são indiferentes. É esse conjunto de variáveis
a que os estoicos chamaram de pathos.
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vols 1 & 2. Leiden: Brill.
[1] Professor de Filosofia do
Instituto Federal de Sergipe e doutorando em Filosofia pela Universidade
Federal da Bahia.
[2] Excesso,
orgulho, desespero, violência.
[3] Emotion and Peace of Mind: From Stoic Agitation to
Christian Temptation. The Gifford Lectures, Oxford:
2000.
[4] Ethics and Human Action in Early Stoicism, Oxford: 1985.
[5] The Hellenistic Philosophers, 2 vols. (Cambridge). Mac Kendrick, P. (1989), The
Philosophical Books of Cicero (London).
[6] TIELEMAN:
2003. p. 15-16.
[7] Poetry and the passions:
two Stoic views', in Brunschwig and Nussbaum (1993) 97-149.
[8] Diógenes Laércio. VII, 40. A partir
deste ponto: D.L.
[9] Kosmon, de acordo com D.L, VII
137-138, “é utilizado pelos estoicos em três sentidos: como Deus em si mesmo do
qual sua qualidade é idêntica à toda substancia do universo; ele é
indestrutível e não gerado, que em períodos de tempo absorve em si toda a
substância e gera novamente a partir de si. É o nome dado à ordem do universo.
E a junção das partes anteriores”.
[10] D.L, VII, 134; Aécio 1.7.3,
Estobeu Eclogae I, Stoicorum Veterum Fragmenta II, 413. A partir deste ponto: S.V.F.
[11] Estobeu, 1.129,2 - 130,13 (= SVF 2.413, LS 47 A).
[12] Long, Soul
and Body in Stoicism, p.37.
[13] Percebamos que o pneuma,
apesar de permanecer ainda como uma mistura de fogo e ar, seus movimentos
distintos moldam todas as estruturas que compõem o universo, por isso, para ser
mais preciso, chamaremos o pneuma nos seres humanos de pneuma
hegemônico.
[14] D.L.VII. 138-9, Philo 2.22.3.
[15] D.L VII 7.157; Aécio 'Plac.' IV,
21. SVF II, 836 [1].
[16] Aécio 4.12.1-5 -Pseudo-Plutarco, Placita Philosophorum,
900 D5 ss.: Χρύσιππος διαφέρειν ἀλλήλων
φησὶ τέτταρα
ταῦτα. Φαντασία μὲν
οὖν ἐστι πάθος
ἐν τῇ ψυχῇ γινόμενον,
ἐνδεικνύμενον
ἐν αὑτῷ καὶ τὸ πεποιηκός· οἷον, ἐπειδὰν δι› ὄψεως θεωρῶμέν τι λευκόν, ἔστι πάθος τὸ ἐγγεγενημένον διὰ τῆς ὁράσεως ἐν τῇ ψυχῇ· καὶ <κατὰ> τοῦτο
τὸ πάθος
εἰπεῖν ἔχομεν, ὅτι ὑπόκειται
λευκὸν κινοῦν ἡμᾶς. ὁμοίως
καὶ διὰ τῆς ἁφῆς καὶ τῆς ὀσφρήσεως. εἴρηται δ› ἡ φαντασία ἀπὸ τοῦ φωτός· καθάπερ γὰρ τὸ φῶς αὑτὸ δείκνυσι καὶ τὰ ἄλλα τὰ ἐν αὐτῷ περιεχόμενα, καὶ ἡ φαντασία δείκνυσιν ἑαυτὴν καὶ τὸ πεποιηκὸς αὐτήν.
[17] D.L VII, 46.
[18] DINUCCI:
2017, p. 16.
[19] Os animais não possuem esse
conteúdo proposicional. No instante em que seu pneuma é afetado por uma phantasia,
eles seguem um impulso inerente as suas naturezas sem questionar o motivo que
os levam a agirem de tal forma.
[20] RAMELLI:
2009, p.XXX.
[21] DINUCCI:
2019, p.321. Ver
também: Plutarco 1038b SVF II, 724.
[22] HIÉROCLES I.1-30 in RAMELI: 2009,
p.XXX. Ver Também um ótimo texto sobre o tema de A.A. Long: Soul and Body in
Stoicism.
[23] D.L VII, 85-87.
[24] RAMELI: 2009, p.XLI.
[25] Galeno, PHP 4.7.4.
[26]
Galeno. PHP, 110, SVF I, 205.
[27] Galeno PHP. 'IV, 4 in SVF
III, 476, 1.: “O termo ‘irracional’ se aplica tanto à privação quanto à
deterioração da razão... O próprio Crisipo faz isso manifestar-se nesta
passagem: ‘Portanto, a afirmação de alguns de que a paixão é um movimento da
alma contra a natureza das coisas não está fora de lugar; como no caso do medo,
do desejo e coisas do gênero. De fato, todos esses movimentos e condições são
desobedientes e desviados da razão. Por esse motivo, dizemos que eles se
comportam de maneira irracional, não no sentido de que se comportam mal no
diálogo, que, em vez disso, seria dito que se opõem ao diálogo por um bom
motivo, mas por sua distração da razão.’
[28] Ver também: SVF I, 208 Temistio
em Aristot. De anima '90b.
[29] Plutarco Da Virtude Moral, SVF
III, 459 [1]. N visão de Estobeu, 'Eclogae' II, 7, 1. SVF I, 206, isso
reforçaria a tese zenoniana da busca estoica por um fluxo
harmonioso e natural (ataraxia), ou seja, um bom fluir (euroia)
do pneuma hegemônico.
[30] Galeno PHP.
[1] 'IV, 4 SVF III, 476.
[31] D.L VII, 110, SVF I, 211.
[32] Καὶ
τὴν μὲν λύπην εἶναι συστολὴν ἄλογον· εἴδη δ' αὐτῆς ἔλεον, φθόνον, ζῆλον,
ζηλοτυπίαν, ἄχθος, ἐνόχλησιν, ἀνίαν, ὀδύνην, σύγχυσιν. Ὁ δὲ φόβος ἐστὶ προσδοκία κακοῦ. εἰς δὲ τὸν φόβον ἀνάγεται
καὶ ταῦτα· δεῖμα, ὄκνος,
αἰσχύνη, ἔκπληξις, θόρυβος, ἀγωνία. Ἡ δ' ἐπιθυμία
ἐστὶν ἄλογος ὄρεξις, ὑφ' ἣν τάττεται καὶ ταῦτα· σπάνις, μῖσος, φιλονεικία, ὀργή, ἔρως, μῆνις, θυμός. Ἡδονὴ
δέ ἐστιν ἄλογος ἔπαρσις ἐφ' αἱρετῷ δοκοῦντι ὑπάρχειν, ὑφ' ἣν τάττεται κήλησις, ἐπιχαιρεκακία,
τέρψις, διάχυσις. (DINUCCI: 2019: p.323).
[33] SORABJI: 2002, p.223.
[34] Galeno, PHP. 'IV, 7.
[35] Plutarco, Da Virtude Moral.
SVF III, 390.
[36] Galeno, PHP, 4.2. 10-18,
in SVF 3.462 L.S.
[37] Vol. 1, p.
419-423.
[38]
Ver também Galeno PHP. 'IV, 5 SVF III 479.
[39] D.L. VII,
111,
SVF III, 456.
[40] Galeno, PHP
4.6.2-3, in L.S, SVF III.473, I.
[41] STOCKDALE:
1993, p.7.
[42] TIELEMAN: 2003, p. 95.
[43] Galeno PHP, IV, [1]. SVF III, 466.
[44] TIELEMAN: 2003, p. 108.
[45] Galeno
PHP, IV, 5 SVF
III, 480.
[46] Idem, Ibid.
[47] Galeno PHP 'IV, 7 SVF III,
466.
[48]
Orígenes,
SVF III, 477 E[1] “...As crianças, no entanto, não experimentam o
medo que os insipientes experimentam; e os especialistas das paixões afirmam
que o medo é outra coisa. Um exemplo é representado pela facilidade das
crianças em esquecer as ofensas quando, no momento das lágrimas, num instante
elas mudam de ideia, riem e se repetem com aqueles que acreditam que as
afligiram ou assustaram, mesmo que sem que alguém realmente faça isso”.
[49] SORABJI: 2002, p.224.
[50] Idem, p.225.
[51] Ibidem, p.227.
[52] GALENO PHP 4.2.8-27, in SORABJI: 2002, p.227
[53] De acordo com o Dicionário de
Isidro Pereira (1957), apostrephesthai significa desviar, dissuadir,
apartar de si, conjura; e diastrephesthai significa torcer, desviar,
fazer voltar, apartar. Ou seja, temos um sentido semelhante de “desviar” que é
usado por Zenão como explicação para o não uso da razão.
[54] SORABJI: 2002, p.227.
[55] SORABJI: 2002, p.230.
[56] D.L. 7.116, SVF
3.431 LS, I, pg. 41). “Os estoicos dizem existirem três boas paixões (ευπατήιας):
alegria (Χαρά), prudência (Εὔλαβεια) e vontade (βούλησις).
A alegria é oposta ao prazer pois consiste em uma expansão racional da mente. A
prudência se distingue do medo por ser uma contração racional. Daí segue-se que
o homem sábio não será medroso (phobésesthai), mais sim prudente (eulabésesthai).
Os estoicos ainda afirmam que a vontade é diferente do apetite, pois consiste
em uma expansão racional ou um desejo racional.
[57] SORABJI: 2002, p.230.
[58]Estobeu 2,
88, 1 and 86, 17-18 in SORABJI: 2002 , p.230.
[59] SORABJI: 2002, p.234.
[60] Estobeu 2.84.21; Cicero Ac. Post.
1.37; SVF 1.192-3 in SORABJI: 2002, p.234.
[61] Cicero, Tusculanas. 3.77-8
in SORABJI: 2002, p.234.
[62] SORABJI: 2002, p.234.
[63] Ibidem, p.235.
[64] Galeno PHP 'IV, 7 SVF III,
466.
[65] SORABJI: 2002, p.235.
[66] Ibidem, p.236.

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